“Adelson” tem 35 anos. Eu o conheço. Ele está no meu “cara-livro” – Guerreiro Parmezam

O escritor Guerreiro Parmezam.

Os pais de Adelson, ainda adolescentes, semi-analfabetos e famintos se lançaram à migração como um náufrago diante de um bote. A peleja esteva só começando.

Na periferia, paredes acabadas só de tijolo baiano, igual aos donos. Baldeações sem fim em terminais claustrofóbicos, piores que o ônibus clandestino que os trouxeram a São Paulo. As viagens nunca terminam.

Numa vida de trajetos, da televisão e do catolicismo, os pais de Adelson migraram para o templo – lá, além de fé e diversão, tem esperança e acolhimento. Os pais de Adelson nunca duvidaram que a parceria divina foi a responsável pela ascensão familiar no abecedário social. Foi neste cenário que Adelson veio ao mundo e cresceu.

Adelson – egresso do grupo de jovens da igreja e formado em ADM, ou coisa parecida, numa dessas muitas universidades particulares cheias de promoções – agora é repleto de certezas: o Estado – tão cruel e indiferente na história familiar – é um antro de políticos corruptos e servidores caros e vagabundos. Portanto, deve ser privatizado. A “esquerda” – formada por acadêmicos arrogantes que sempre zombaram de seus ritos, de seu léxico, de seus artistas prediletos – só é digna de seu ódio. A inclusão pública cidadã de sujeitos com opções pessoais diferentes ao do modelo tradicional – heteronormativo, submisso e cristão – atenta contra o que é “certo”. Sendo assim, precisa ser corrigida.

Adelson aprendeu que dá pra resumir em apenas uma palavra os errantes que simpatizam com os três males do país: “comunistas!”. Assim, poupa saliva ou tempo no whatsapp.

Convencido pelo líder religioso da comunidade, Adelson tem certeza que tem dívidas com Deus pelo sucesso de seus pais, pela faculdade que fez, pelo emprego que arrumou, pela esposa e filhos, pelo terno impecável convocado para glorificar tantas conquistas. E é por isso que Adelson fecha os olhos quando entra em transe. Tanta fé assim não cabe dos olhos pra fora, e por isso acaba ficando do olhar pra dentro.

Adelson só vê então dois personagens: os que estão acima de si e são exemplos a serem seguidos; e os que são diferentes e precisam ser “evitados”.

Adelson é boa gente. É honesto, é trabalhador, é sensível, mas diante da cegueira não percebe (assim como milhões de outros Adelsons) a formação de um exército miliciano paralelo, cujo principal objetivo é a deflagração de uma guerra civil, em 2022. De 9 mil licenças de caça, o Brasil saltou para quase 400 mil em um ano e meio. Gente raivosa que poderá fazer uso de armamento restrito, sem controle e com direito até de produzir o próprio arsenal.

Se um dia Adelson se der conta, dirão que o massacre será contra os “comunistas” e que Deus exige soldados!

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E-book | Crônicas | 90 páginas | R$25,00 | Receba pelo e-mail.

Escritores populares furam bloqueio midiático publicando livros digitais

Escritores e poetas, alguns iniciantes, outros já com longa estrada, têm buscado todas as formas de fazer com que suas vozes cheguem aos leitores. De blogs de literatura a canais no YouTube, de lives ao vivo a sarais gravados e postados nas redes sociais, aos poucos a muralha midiática vai deixando entrever as brechas promovidas por esses ativistas da linguagem que, dos guardanapos de papel e rascunhos em cadernos, transmigram seus textos para a rede mundial de computadores. E o e-book tem se mostrado ótimo parceiro na circulação de ideias, pensamentos e sentimentos, porque chega onde o livro físico não chega, e a um preço verdadeiramente popular.

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E-book ilustrado | Poesia | 262 pág. | R$30,00

Caraça é um volume de poemas, porém ninguém se engane: nele, mesmo quando o assunto é amor, há o espeto de uma piada embutido no lirismo, afinal, “Quem quer o amor, quer o espeto”. O livro se diverte com as pobrezas humanas e explora as riquezas poéticas e humorísticas da língua portuguesa, em versos líricos e satíricos.

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E-book | Não ficção | 80 páginas | R$ 25,00

O relato corajoso da luta contra o alcoolismo por uma perspectiva humanista e democrática. Aqui o autor demonstra a importância das redes de apoio e solidariedade, que incluem família, amigos, companheiros de luta e colegas de trabalho, porém também destaca o papel decisivo dos profissionais da saúde especializados nessa doenças que é talvez uma das mais graves epidemias que assola o planeta.

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E-book | Poemas gráficos | 56 páginas| R$25,00

Reúne uma série de poemas gráficos de Maria Emília Novaes, já publicados em livro impresso, quadros, cartazes e camisetas – e agora ganha formato e-book. Os, os poemas desenham imagens figurativas de diversas naturezas: uma sombra de menina, lembrando o famoso quadro de Velázquez, um cão de duas cabeças, lembrando o mito de Cérbero, uma silhueta de mulher moldando um pote, entre outros.

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E-book ilustrado | Poesia urbana |64 páginas | R$25,00

Avessos do tempo, de Fábio Wolf, sendo um livro de poemas, é também um retrato emocional de sua geração, que atinge a maturidade numa década encerrada de forma perturbadora neste  2020 cheio de acontecimentos angustiantes, emoldurados por uma pandemia ainda sem prazo para ser debelada.

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E-book | Poesia popular| 72 páginas | R$20,00

Poesias para a periferia é antes de tudo um livro bonito duas vezes: de se ver e de se ler. Poemas curtos como lampejos iluminam os olhos a cada página. A obra está dividida em sete partes: A esperança, A sabedoria, O povo, A luta contra o preconceito, A cidadania, O amor e A política, nas quais as mensagens, por meio de uma linguagem bem articulada, direta e simples como a água límpida, chegam quentes de sentimento ao coração do leitor.

Um operário pelos caminhos da filosofia – Mário Silva Lima

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E-book | Filosofia | 58  páginas | R$15,00 | Receba pelo e-mail

O livro discute fundamentos do pensamento filosófico, com uma visão panorâmica sobre alguns temas da filosofia importantes para os que se iniciam nela, particularmente jovens e adultos que buscam compreender os conflitos individuais e coletivos destes nossos acelerados e conturbados tempos.

Nascido em 29 de abril de 1952, no bairro de Ramos, até os cinco anos de idade, Mário Silva Lima viveu na luminosa cidade do Rio de Janeiro, onde morou no Encantado e em Indianápolis. Nesses bairros, a vizinhança parecia fazer parte da família; nessa família ampliada ele e a irmã eram o centro dos cuidados. Vindo para a cidade de São Paulo em 1957, passou a morar em vila Ede, então distante periferia da Zona Norte. Adolescente, trabalhou numa pequena fábrica de vassouras e, depois de um curso profissionalizante no Senai, tornou-se metalúrgico, profissão em que se aposentou em 2011. Gradou-se em Filosofia em 2003 pela Universidade São Judas Tadeu.

Tempos do cinema brasileiro – Plínio M. Camargo

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E-book | Cinema | Obra de referência | 200 páginas | R$25,00 | Receba pelo e-mail.

Tempos do cinema brasileiro, de Plínio M. Camargo, traça um panorama objetivo da sétima arte no Brasil desde o final do século XIX até os nossos dias. Pontuando os momentos importantes da filmografia brasileira, o livro é um guia prático de consulta, em que as informações são oferecidas em linguagem clara e elegante. A pesquisa criteriosa, a acuidade na seleção das obras e os recortes críticos precisos são a marca deste livro, mas também do autor, reconhecido por seu rigor metodológico e por seu cuidado com detalhes decisivos.

Plínio de Mesquita Camargo (26/02/1957), pesquisador de cinema, cineclubista, escritor, roteirista, artevisualista e poeta, foi também ator de teatro, tendo participado da montagem de Homens de Papel, de Plínio Marcos, realizada pelo grupo Becos e Transversais no início da década de 1980, em São Paulo. Participou da retomada do movimento cineclubista, no início da década de 2000. Foi conselheiro do Centro Cineclubista de São Paulo e da coordenação do Cineclube Baixa Augusta. Trabalha na Biblioteca Paineiras, do Centro Cultural Vladimir Herzog, em Diadema (SP).

Afetos urbanos – Guerreiro Parmezam

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E-book | Crônicas | 90 páginas | R$25,00 | Receba pelo e-mail.

Afetos urbanos – Crônicas (quase sempre) felizes é um delicioso volume de crônicas, que passeiam por bairros da megalópole, onde afetos se constroem e se diluem ao sabor da chuva ou do semáforo que obriga o pedestre a apressar o passo com sofreguidão.

Mais que o olhar, o coração do autor perscruta a vida de personagens que se cruzam, se esbarram, se empurram, se agridem ou se abraçam, a exemplo da crônica Fire and Rain, na qual, em uma noite de tempestade, um executivo de multinacional, surpreendido pelo imprevisto, é forçado a se abrigar num bar de periferia em que a música ao vivo rola a pedidos, enquanto aguarda o socorro a seu automóvel importado, falhado no meio do, para ele, nada. Aqui, ao som do músico que intui a “encalacrada” em que o executivo se meteu, a diferença social se dissolve a cada acorde da balada de James Taylor: o medo dá lugar à fraternidade e a transformação ocorre no coração do CEO, empedernido pelo dinheiro e pelo poder econômico. Obviamente não se vai aqui além do que se disse, para que se mantenha em segredo os desdobramentos e o final surpreendente dessa crônica que, para júbilo do leitor, é uma, de um belo conjunto de quatorze.

GUERREIRO PARMEZAM Nasci em São Paulo num domingo de Carnaval de 1969. Desde a pré-adolescência como mestre de cerimônia da escola, ator nos teatrinhos institucionais e “articulista” do jornalzinho da comunidade estudantil. Numa época em que ninguém fazia ideia do que era bullying, eu encarava ser Ney Mato Grosso em performance cover dos “Secos e Molhados”. Eu podia não ser o office boy mais competente da Seguradora, mas certamente era o único que frequentava, como apreciador e crítico, os bons restaurantes do Centrão Velho de S. Paulo, na década de 80 – fruto de boa política com patrões e garçons. Desde então fui me arvorando à cozinha também. Na década de 90, meus riscados casaram-se com melodias, e assim tornei-me compositor – premiado em diversos festivais e músico amador. Foi também nessa época que me graduei em História pela USP e passei a dar aulas – cujo sucesso de público deveu-se, principalmente, à irresistível tentação de narrar a História como se esta fosse um grande roteiro. Quando me vi na solitária da quarentena, não tive dúvida: fiquei mais profissional na cozinha e mais letrado nas memórias. Mal sabiam meus velhos colegas de meninice ou meus recém ex alunos que deles eu coletava tudo: as expressões, os comentários, as perspectivas. E foi juntado as memórias vividas com as memórias inventadas que surgiu este “Afetos Urbanos” – uma intimidade pública, cuja pretensão é que tais histórias possam, de um jeito ou de outro, dar ao leitor pelo menos parte da sensação que senti ao escrevê-las: um pouco de leveza; um pouco de otimismo.

Gente, meu livro taí!!! – Guerreiro Parmezam

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E-book | Crônicas | 90 páginas | R$25,00 | Receba pelo e-mail.

AFETOS URBANOS é meu primeiro trabalho ficcional. Nele, reúno memórias vividas – CULINÁRIA, EX-ALUNOS, AMIGOS DE MENINICE, PARÇAS DE MÚSICA, PROFESSORES, COLEGAS… – misturada com memórias inventadas. Crônicas, contos, poesia e receita – tudo junto e misturado.

“AFETOS URBANOS” foi escrito na pretensão de alcançar os mais diversos perfis de leitor – quem procura entretenimento, encontra; quem for mais analítico, verá erudição. Meu editor resumiu bem, depois de lê-lo, aquilo que eu senti ao escrevê-lo: um LIVRO LEVE e (na maioria das vezes) OTIMISTA.

Por falar em “leve”, o preço é pluma: 25,00 em e-book (com registro indicativo para cada comprador). É só acessar o link a seguir e você o receberá em formato virtual.

De coração, me sinto honrado por cada click. De coração e cabeça, mais grato ainda por aqueles que – curtindo meus textos por aqui na rede ou depois de se divertir com o livro – tenham a moral de compartilhar meu trabalho, dedicado “in memoriam” ao meu pai, Seu Alcides.

Valeu, caras!!!

Guerreiro Parmezam é escritor, músico e professor de história.

A visita, depois da Covid19 – Cacá Mendes

A visita, depois da Covid19

Eu bati no portão de zinco, já bastante enferrujado, e ecos ocos das batidas fortes alcançaram, depois de minutos, os ouvidos do seu Mané… Quando ele abriu aquilo, rangendo de velho, e de pouco uso, e me viu, ficou um tanto de tempo na dúvida, foi. Tentei falar logo pra ele (ele não tem, nunca teve qualquer demência!), de quem eu era e o senti mais em duvida ainda. Realmente eu lhe parecia um estranho;  e sua barba e cabelos o tornaram a mim também um sujeito longínquo, muito estranho. Afinal, pelas contas, há mais de um ano e meio ninguém visitava ninguém, e talvez por isso, nos estranhávamos ali um diante do outro. O mato na calçada, próxima à entrada da casa já era algo muito, muito, acima do normal. A prefeitura parecia já não existir para as ruas, calçadas, esgotos, e tudo era um abandono só. As barbas e cabelos de meu pai estavam crescidos um pouco na proporção daquele pequeno matagal da sua porta. “Seu Mané!”, “Seu Mané!”, esse poderia ser o grito agudo de um garoto da vizinhança que ora veio lhe pedir uns limões.

Menino esperto, mas magrinho como um grilo, tentava pular nas orelhas do meu pai (que andava um pouco surdo, sim) para que ele entendesse do pedido de sua mãe, dos limões… Eu tentei ajudar, traduzir, mas o meu português, sem o sotaque carregado de Minas foi compreensivamente recusado pelos ouvidos de meu pai. Eram as ferrugens do tempo. Sim, depois de confinamentos, quarentenas, Covids, vírus e vermes, tudo-junto numa mesma ré-pública, num mesmo limite geopolítico, ficava irremediavelmente incompreensível. Principalmente para um senhor de 90 anos, morador de uma quase pacata cidade do interior de Minas Gerais. Uai.

Depois de atendido o magricelinho dos limões, novamente o “Seu Mané” ficou me olhando, de cima abaixo, sem me dizer nada, absolutamente nada. Eu disse a ele de mim, e aí fez uma cara de simpático, e me mandou entrar. Fez perguntas e pediu à sua mulher que fizesse um café, depois almoço, janta e que eu devia dormir por lá… Andava assustado ainda com as notícias do vírus. Pois tudo que não queria era morrer nas unhas desse bicho, me disse. Deu uma risadinha, deixando mostrar sua boca já sem dentes em meio aquele matagal de barba e cabelos. Eu tive certo alívio com aquela recepção, discreta, mas acolhedora e simpática; e tive mais sorte ainda d’ele se lembrar de mim, dos meus irmãos, dos meus filhos. Enfim, sua memória andava pelas tantas, cheia de vida ainda. Só não se lembrava do nome do presidente da república, e meio envergonhado, pude notar, achou que ainda era o Lula. Depois, lhe expliquei que não, falei do nome do presidente atual, e ele então se lembrou do tal; riu meio triste e me confessou: eu não votaria nesse capeta, nem se eu fosse um demônio. Pro inferno!

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E-book – Crônicas | 72  páginas | R$20,00 | Receba pelo e-mail

Cacá Mendes nome artístico de Carlos Aparecido do Carmo, licenciado em Letras, Português, pela Faculdade Sumaré, é produtor cultural, poeta, compositor e cineclubista, nascido em 1959 em Monte Belo, Minas Gerais. Vive em São Paulo desde 1980. Autor das seguintes publicações: O beijo experimental (poesia, edição do autor, 1986); Contido Descontrolado (poesia, Editora Plêiade, 2012). Participou de fanzines e foi colaborador com reportagens (sobre cineclube e teatro) e matérias no jornal Classe Operária (do Partido Comunista do Brasil), entre 1988 e 1992. Juntamente com o músico Edson Tobinaga criou, em 2008, Os Conversadores, nome tanto do espetáculo poético-musical, como do grupo, e que posteriormente, em junho de 2013, também daria nome ao Sarau dos Conversadores, criado por ele e Tony Fernandes. Um dos criadores e um dos organizadores das antologias poéticas Uma poesia hojeantologia Brasil-Itália (Patuá, 2018) e 40 Poetas em SP (Patuá, 2019). Atua ainda como produtor de eventos, professor e consultor em projetos culturais para editais de fomentos, leis de incentivos e afins.

Pequena geografia – Plínio M. Camargo

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E-book | Poesia gráfica e visual | 50  páginas | R$20,00 | Receba pelo e-mail

Em 1984, Plínio M. Camargo produziu um pequeno volume artesanal de poemas (geo)gráficos a que chamou Pequena geografia. Feito para circular de mão em mão, cada volume tinha literalmente as digitais do poeta.

No ano 2000, agora com recursos oferecidos pelo computador e pela impressora eletrônica, o poeta produziu uma nova edição artesanal. No mesmo ano, Pequena geografia seria publicado na forma de livro-objeto, em parceria com este editor, que dividia a mesma caixa de papelão com Recheios de lâminas para sanduíches de vidro. Uma tiragem limitada saiu em 2011 na forma de livro impresso, para participar de um edital de programa de governo.

Nesta edição digital, comparece a mesma fome de viver que impulsionou os dedos no teclado da Olivetti Lettera há 37 anos. A diagramação artística é do próprio poeta, e a tipologia Courrier New mantém e espirito da geração mimeógrafo, que com seus poemas provocativos e cheios de duplos sentidos, fecundou a literatura brasileira com humor ingênuo e juvenil e com o coração de sempre estudante, como se vê no poema a seguir:

Plínio M. Camargo é poeta, cineclubista e ghost writer.

A formação do leitor contemporâneo de Jorge Amado – Fábio Wolf

Discutir o leitor contemporâneo da obra amadiana não é tarefa das mais fáceis. Ainda mais levando-se em conta a complexidade sociocultural na qual tal leitor está inserido. E este atual período da globalização não deixa dúvidas em relação a isso. As chamadas revoluções tecnológicas, de fato, implicam em alterações no campo cognitivo, reconfigurações nos espaços sociais e rupturas, tanto para o “bem” quanto para o “mal”, na forma como os sujeitos interagem com as obras literárias que lhes são acessíveis.

O cenário atual dá destaque primordial para a o mundo online e seus variados aplicativos, elementos que vêm ganhando, gradativamente, espaços que, outrora, eram dominados por formas tradicionais de leitura, discussão e compreensão dos gêneros literários. Observa-se a eclosão de blogs, fóruns virtuais, sítios especializados, o aumento significativo de usuários do Facebook e do Twitter como formas novas de contato com o mundo dos livros.

Há muita gente, diante desse cenário, que aposta, inclusive, na morte do livro físico, só para se ter uma ideia. Ainda devemos levar em consideração a miscelânea de fatores sociais que entra em jogo, interagindo com linguagens oriundas das mais diversas matizes culturais que estão em contado direto com esses suportes. Fato que torna a compreensão do leitor contemporâneo de Jorge Amado um processo ainda mais desafiador. Não sendo objetivo deste pequeno ensaio discutir detidamente todos esses aspectos, gostaríamos de construir o nosso recorte teórico/metodológico tendo como enfoque as novas gerações de leitores que estão inseridas, em sua grande maioria, no contexto social exposto anteriormente.

Em nosso entendimento, algumas questões devem ser colocadas no sentido de problematizar temas que julgamos essenciais para que a leitura crítica do legado de Jorge Amado não seja ofuscada por interpretações pós-modernas reducionistas. Dois fatores primordiais devem, então, ser debatidos. O primeiro, diz respeito, em grande medida, ao desafio de lidar criticamente com as novas tecnologias sem perder de vista a riqueza cultural presente nas obras do escritor baiano. Uma riqueza histórica, cultural e, sobretudo, política, tão essenciais ao esclarecimento e ao despertar de consciências dos seus leitores em relação às desigualdades sociais do passado, do presente e do futuro.

O segundo fator que gostaríamos de destacar no presente ensaio versa sobe a necessidade urgente de criarmos formas de ação, em especial nos campos da política, da cultura e da educação, com o objetivo precípuo de garantir que o legado Amadiano não caia no processo de “coisificação” e de “instrumentalização” que tanto empobrecem a leitura e a interpretação das suas obras.

São dois desafios que devem caminhar juntos se a nossa meta é a de lutar pela formação de leitores críticos que pensam a obra de Jorge Amado em sua plenitude, para muito além de se prepararem para exames de admissão em universidades, por exemplo. Infelizmente, muitos leitores das novas gerações têm sido obrigados a “engolir” clássicos literários com o único objetivo de serem aprovados em exames pré-vestibulares. Trata-se, sem dúvida, de um processo de instrumentalização reducionista e empobrecedor, pois, em grande parte dos casos, o processo crítico de leitura é substituído por uma prática dolorosa que tem como único objetivo a aprovação em um exame de admissão.

Os ensaios presentes no suplemento literário da revisa Princípios deste bimestre deixam claro que a obra de Jorge Amado é composta por uma riqueza política, cultural e simbólica imensuráveis e que podem ser melhor trabalhadas no sentido de preservar, entender e modificar o mundo desigual no qual vivemos.

O ritmo frenético das ditas sociedades pós-modernas, sua flagrante monetarização (“Time is Money”) surgem como forças hegemônicas que estão modificando os nossos comportamentos. Dos nossos íntimos desejos inconscientes ao nosso mecanizado cotidiano, a onda de mercantilização segue sua sanha de transformar tudo o que pode em mercadoria. E a formação da identidade dos novos leitores parece não escapar a esta lógica consumista. Aliás, as suas próprias identidades são entendidas como potenciais mercadorias a serem exploradas, de preferência, o mais rápido possível, “tempo é dinheiro”.

Infelizmente, as novas tecnologias têm servido mais a este fim do que propriamente à formação de uma geração leitora crítica, consciente do seu papel na superação dos preconceitos de classe e da exploração de classes, temas tão candentes nas obras de Jorge Amado. Esta problemática emerge, no nosso entendimento, como um grande desafio a ser enfrentado. Professores, alunos, ativistas culturais, intelectuais e a sociedade civil como um todo devem estar juntos no enfrentamento dessas questões.

Nesse sentido, as novas tecnologias, mais do que instigar uma leitura superficial, fast food, acrítica dos nossos grandes escritores, deve, ao contrário, incentivar o contato com novas linguagens e processos sócio-cognitivos que enriqueçam a leitura, aliando-se a padrões éticos que entendam o livro e o próprio processo de leitura não como meras mercadorias ou como “instrumentos” dirigidos a fins específicos de aprovação, mas, sim, como recursos simbólicos essenciais ao desenvolvimento pleno e humanista dos seus leitores. Afinal de contas, não é esse o principal objetivo de Jorge Amado e da chamada Literatura Engajada?

*Fábio Wolf é doutor em Linguística Aplicada e Estudos de Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autor de Avessos do Tempo, pela editora Serra Azul.

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VEJA UM DOS 36 ROTEIROS:

QUEM NÃO COLA NÃO SAI DA ESCOLA

Toda cultura humana está cheia de mitos. A Grécia Clássica não vivia sem mitos, Roma que a sucedeu a copiou e ampliou o panteão de mitos. O tempo cuidou do resto, difundindo para o Ocidente e para os nossos dias essa forma de ver o mundo e de transmitir conhecimento.

O Oriente não fica por menos: Japão, Índia, China entre outros, e, mais perto de nós, no tempo e no espaço  Pérsia, Arábia etc. etc. etc.

Espanha, Portugal Turquia? Rússia? África? Índios americanos? Polinésio? Nenhum viveu, vive e viverá sem mitos. Não adianta lutar contra eles, que se já eram portentosos na antiguidade, só ganharam mais força e descendentes com o intercâmbio crescente entre os povos.

A cultura humana é uma fábrica de mitos: no teatro, Molière não é um mito? na música clássica, o que é hoje o regente da orquestra? No cinema, o que é Greta Garbo ou Chaplin?

A escola não fica de fora dessa cultura de mitos, contribuindo talvez com o mais popular deles entre crianças e adolescentes: a cola.

Sim, a cola é, antes de tudo um mito. Que seria a escola sem ela? Sequer a palavra sobreviveria. Quer ver? Apague a palavra “cola” da palavra “escola”. O que resta? Meu caro professor, dói no coração, mas o dia em que a cola desaparecer, a escola vai ter que mudar de nome, os dicionários etimológicos vão embatucar e os congressos de filologia conhecerão o verdadeiro caos.

A cola e a escola foram feitas uma para a outra – e o mito imortal entre as duas é a primeira. E, uma vez que um mito não cessa de viver nunca, o mais recomendável é explorar seus aspectos positivos – pois eles existem –, e procurar isolar suas manifestações deletérias com olhos de águia durante as provas e exames escolares.

Este segundo roteiro de trabalho com a poesia encara o mito frente a frente. Para tanto convoca um mito: a “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, e dois demolidores de mitos: os poetas Oswald de Andrade e Cacaso.

Roteiro no. 2: Eu copio, tu copias, todos levam a fama

Quem e o quê…

Uma turma de séries finais do Ensino Fundamental.

Papel, lápis e borracha.

Cópias do poema “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias.

Cópias do poema “Canto de regresso à pátria”, de Oswald de Andrade.

Cópias do poema “Jogos Florais”, de Cacaso.

Obs.: Os textos devem ser pesquisados em livros ou em sites autorizados e confiáveis da internet.

Como fazer

Distribuir cópias da “Canção do Exílio” aos alunos.

Solicitar que, em grupo, ensaiem leituras orais do poema.

Solicitar que alguns voluntários realizem leitura para toda a turma.

Orientar essas leituras orais voluntárias, interrompendo o aluno e dando dicas de como conquistar maior alcance de voz, melhor efeito de locução, mais sentimento na expressão – sempre alertado para que se evite a pieguice ou a leitura afetada, estilo “batatinha quando nasce…”

Solicitar que a turma escreva pequenos poemas sobre o tema “saudade” de um lugar, sempre incorporando ou parafraseando trechos da “Canção do Exílio”.

Solicitar que os colegas troquem entre si os textos produzidos.

Solicitar que cada um, em outra folha de papel, escreva um novo texto a partir do texto do colega, desta vez, porém buscando o efeito humorístico,  de forma a produzir uma paródia. Alertar que não vale empregar termos chulos ou que humilhem quem quer que seja.

Realizam-se leituras para toda a classe dos textos produzidos e das respectivas paródias.

Após isso distribuir para metade da turma o poema de Oswald de Andrade e para outra metade o poema de Cacaso.

Cada aluno lê os poemas e os compara com suas produções.

Organiza-se um grande círculo na sala com as carteiras.

No interior desse círculo, alunos se revezam na leitura dos poemas e dos textos por eles produzidos.

Sugestão

O professor deve aproveitar essa grande roda final para ensaiar leituras orais com os alunos. Essas leituras podem explorar recursos de voz e de expressão extraídos ao teatro, de forma a criar um ambiente de desinibição do aluno em face da turma, ambiente que deve prevalecer sempre que a literatura em geral e a poesia em particular forem objetos das atividades.

Dica

O poema de Oswald de Andrade implica em uma certa ironia para com a fonte de que partiu, pois fala de seus sentimento acerca uma cidade moderna, ao passo que o poema de Gonçalves Dias elogia um país rural, e mesmo florestal, com sua natureza exuberante.

Já o poema de Cacaso faz uma alusão esperta e mesmo sarcástica à censura que imperou no Brasil durante a ditadura militar. A menção a Palmares, quilombo que resistiu ao domínio português, como insinua resistência à ditadura (“cala-te boca”, diz o poeta).

Como tratar com pré-adolescentes esses assuntos (natureza versus progresso,  liberdade versus opressão) é uma arte que fica ao encargo do professor, junto com a ponderação de que não há assunto espinhoso que não possa ser tratado na escola. Pesquisa, orientação e debate são recursos preciosos para isso.

Além de Oswald de Andrade e de Cacaso, muitos outros poetas fizeram referência ao poema de Gonçalves Dias, dentre eles Casimiro de Abreu e Murilo Mendes, com o mesmo título (Canção do Exílio), Carlos Drummond de Andrade (Nova Canção do Exílio) Mário Quintana (Uma canção) entre outros. Nem o Hino Nacional Brasileiro, composto por Joaquim Osório Duque Estrada, escapou, ao citar os versos: “Nossos bosques têm mais vida / Nossa vida no teu seio mais amores”.

Como vemos, não são poucos os poetas que, mais ou menos famosos, colando de Gonçalves Dias, fizeram escola, reforçando o mito.

Como vemos, nem toda cola merece zero de nota.

Jeosafá Fernandez Gonçalves é Doutor em Letras pela USP E pesquisador Colaborador do Departamento de História da mesma Universidade. Escritor e professor, lecionou para a Educação Básica e para o Ensino Superior privados. Foi da equipe do 1o. ENEM, em 1998, e membro da banca de redação desse Exame em anos posteriores. Compôs também bancas de correção das redações da FUVEST nas décadas de 1990 e 2000. Foi consultor da Fundação Carlos Vanzolini da USP, na área de Currículo e nos programas Apoio ao Saber e Leituras do Professor da Secretaria de Educação de São Paulo.  Autor de mais de 50 títulos por diversas editoras, entre os quais O jovem Mandela (Editora Nova Alexandria); O jovem Malcolm XA lenda do belo Pecopin e da bela Bauldour, tradução do francês e adaptação para HQ do clássico de Victor Hugo (Mercuryo Jovem).