O escritor Guerreiro Parmezam.

Os pais de Adelson, ainda adolescentes, semi-analfabetos e famintos se lançaram à migração como um náufrago diante de um bote. A peleja esteva só começando.

Na periferia, paredes acabadas só de tijolo baiano, igual aos donos. Baldeações sem fim em terminais claustrofóbicos, piores que o ônibus clandestino que os trouxeram a São Paulo. As viagens nunca terminam.

Numa vida de trajetos, da televisão e do catolicismo, os pais de Adelson migraram para o templo – lá, além de fé e diversão, tem esperança e acolhimento. Os pais de Adelson nunca duvidaram que a parceria divina foi a responsável pela ascensão familiar no abecedário social. Foi neste cenário que Adelson veio ao mundo e cresceu.

Adelson – egresso do grupo de jovens da igreja e formado em ADM, ou coisa parecida, numa dessas muitas universidades particulares cheias de promoções – agora é repleto de certezas: o Estado – tão cruel e indiferente na história familiar – é um antro de políticos corruptos e servidores caros e vagabundos. Portanto, deve ser privatizado. A “esquerda” – formada por acadêmicos arrogantes que sempre zombaram de seus ritos, de seu léxico, de seus artistas prediletos – só é digna de seu ódio. A inclusão pública cidadã de sujeitos com opções pessoais diferentes ao do modelo tradicional – heteronormativo, submisso e cristão – atenta contra o que é “certo”. Sendo assim, precisa ser corrigida.

Adelson aprendeu que dá pra resumir em apenas uma palavra os errantes que simpatizam com os três males do país: “comunistas!”. Assim, poupa saliva ou tempo no whatsapp.

Convencido pelo líder religioso da comunidade, Adelson tem certeza que tem dívidas com Deus pelo sucesso de seus pais, pela faculdade que fez, pelo emprego que arrumou, pela esposa e filhos, pelo terno impecável convocado para glorificar tantas conquistas. E é por isso que Adelson fecha os olhos quando entra em transe. Tanta fé assim não cabe dos olhos pra fora, e por isso acaba ficando do olhar pra dentro.

Adelson só vê então dois personagens: os que estão acima de si e são exemplos a serem seguidos; e os que são diferentes e precisam ser “evitados”.

Adelson é boa gente. É honesto, é trabalhador, é sensível, mas diante da cegueira não percebe (assim como milhões de outros Adelsons) a formação de um exército miliciano paralelo, cujo principal objetivo é a deflagração de uma guerra civil, em 2022. De 9 mil licenças de caça, o Brasil saltou para quase 400 mil em um ano e meio. Gente raivosa que poderá fazer uso de armamento restrito, sem controle e com direito até de produzir o próprio arsenal.

Se um dia Adelson se der conta, dirão que o massacre será contra os “comunistas” e que Deus exige soldados!

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